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Política - China

Postada em 03/06/2019 ás 14h04 - atualizada em 03/06/2019 ás 14h27

Publicada por: Jornalista Milton Atanazio

O dia que definiu o futuro chinês
Trinta anos atrás, o Exército chinês reprimiu a tiros o acampamento de estudantes que ocupava ...
O dia que definiu o futuro chinês

O massacre da Praça da Paz Celestial foi o ápice de um conflito interno no Partido Comunista Chinês (PCC)

O dia que definiu o futuro chinês Trinta anos atrás, o massacre da Praça da Paz Celestial marcava a China como exceção na abertura dos países comunistas. Hoje, ela parece precursora de um modelo que se espalha

Trinta anos atrás, o Exército chinês reprimiu a tiros o acampamento de estudantes que ocupava havia 51 dias a Praça da Paz Celestial (ou Tinanmen), em Pequim. Até hoje o número exato de mortos é ignorado. Fala-se em milhares.

O tema é um dos tabus mais resguardados pela ditadura chinesa. As datas de 3 e 4 de junho – o massacre ocorreu ao longo do fim de semana – são proibidas em mecanismos de busca na China. Para falar no assunto em código, é comum chineses usarem o fictício “35 de maio”.

O massacre foi o momento decisivo para definir o rosto da China que emergiria como superpotência no século XXI. Ocorreu no momento em que o Leste Europeu se abria à democracia. Mikhail Gorbachev implantava a Perestroika que levaria à extinção da União Soviética dois anos depois. No final daquele ano, cairia o muro de Berlim.

Àquela altura, parecia claro que, diante da derrocada econômica, ruiriam também as estruturas políticas autoritárias que sustentavam no poder partidos comunistas de todos os matizes. O mundo caminhava a passos largos rumo à democracia e ao liberalismo econômico.

Não na China. O massacre da Praça da Paz Celestial foi o ápice de um conflito interno no Partido Comunista Chinês (PCC). Saiu vitoriosa a ala do todo-poderoso Deng Xiaoping, promotor da abertura econômica, mas sem abrir mão de ditadura nem repressão política.

Uma nova leva de documentos publicada em Hong Kong, no livro The Last Secret (O último segredo), revela os detalhes desse conflito, que resultou na queda do secretário-geral do PCC (cargo mais importante na hierarquia chinesa), Zhao Ziyang. Duas semanas depois do massacre, Zhao foi derrubado pela ala leal a Deng, sob o pretexto de ter resistido ao uso da força militar para combater os protestos.

Zhao considerava um erro reprimir uma manifestação que começara em abril como homenagem ao reformista Hu Yaobang, líder popular do PCC que acabara de morrer. Ainda mais que Zhao, Hu defendia maior abertura política, liberdades de manifestação e expressão, pauta que desde o início motivou os estudantes reunidos na praça.

Deng, ao contrário, queria reprimi-los. Em 26 de abril, mandou publicar um editorial no jornal oficial do PCC, o Diário do Povo, condenando os protestos em termos duros. A manobra se voltou contra ele. No dia seguinte, mais de 500 mil pessoas acorreram à Praça da Paz Celestial, no maior desafio popular à tirania do PCC desde a Revolução de 1949.

Décadas antes das redes sociais, das praças no Cairo, Madri, Kiev e dezenas de movimentos populares de ocupação, os chineses ficaram acampados e se recusavam a sair da praça. A repressão se tornou inevitável para Deng. Ele ainda decidiu esperar uma visita de Gorbachev a Pequim marcada para maio antes de agir.

Zhao, revelam os novos documentos, procurou Deng no final de abril, mas não foi recebido. Deng já agia à revelia do secretário-geral para pôr em ação o uso da força contra os manifestantes. A autorização foi dada em 16 de maio, no dia seguinte à partida de Gorbachev de Pequim

A partir dali, estava claro que a China seguiria um caminho distinto da União Soviética e do Leste Europeu. Não haveria democracia, nem tentativa de abertura política. Zhao e seus acólitos foram depostos. Pouco depois, Deng pôs no poder o dócil e submisso Jiang Zemin. Comandou toda as decisões de relevo na China até morrer, em 1997.

Enquanto o Ocidente apostava que o capitalismo e a democracia liberal eram gêmeos siameses, que fatalmente conquistariam os países que escapavam da tirania comunista, a China tentava implantar de outro modelo: com liberdades econômicas, sem liberdades civis; capitalismo sim, democracia não. Uma espécie de "capitalismo iliberal".

O espetacular crescimento econômico chinês desafia desde então os teóricos ocidentais. Muitos duvidam que tal modelo perdure. Até hoje afirmam que a expansão da classe média voltará a fazer pressão pela abertura política e que, mais dia menos dia, um novo movimento da Paz Celestial acabará por abrir o sistema político.

A realidade os tem desmentido. Depois de dois presidentes de perfil acanhado, Xi Jinping aboliu no ano passado os limites à reeleição e assumiu poderes quase absolutos. O modelo de controle autocrático e abertura econômica foi importado pela Rússia de Vladimir Putin, daí se espalhou aos países do Leste Europeu, como Hungria ou Polônia. Em 1989, a China parecia um caso único, exceção a remar contra a corrente avassaladora da democracia liberal.

Não mais. Nas palavras do historiador Ian Buruma: “O que aconteceu na China depois que os protestos foram esmagados aponta para outra verdade. O ‘capitalismo iliberal’ emergiu desde então como um modelo atraente para autocratas de todo o mundo, mesmo em países que tiveram sucesso ao se livrar do comunismo há 30 anos. Os chineses apenas chegaram lá primeiro”.

Fonte: g1

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