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Willian Tito Jornalista, radialista e redator publicitário apaixonado pelas letras. Comunicador há 35 anos.

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Geral - Páscoa

Postada em 13/04/2020 ás 13h02 - atualizada em 13/04/2020 ás 17h31

Publicada por: Willian Tito

UM RITO DE PASSAGEM
O corona veio destronar e coroar
UM RITO DE PASSAGEM

A Páscoa encerrada ontem, domingo, 12, veio ressignificada em tempos de pandemia. Ao longo de milhares de anos, o Pessach (em hebraico), que traduzido é simplesmente passagem, veio se transformando conforme os fatos marcantes associados às mudanças.

Originalmente, o momento pascoal antecede o período monoteísta do povo hebreu. A cultura pagã do povo nômade, que vagava no deserto com seu rebanho de ovelhas, celebrava a passagem do inverno para a primavera com rituais de sacrifício em agradecimento à renovação da vida aos deuses. O principal deles chamava-se Baal.

O dilema politeísta, que além de animais, sacrificava vidas humanas à divindade pagânica, encerrou definitivamente os sacrifícios de pessoas com o emblemático teste de fé, onde o patriarca Abraão foi submetido a reverenciar a Deus oferecendo a vida de seu único filho com Sara, Isaque.

A partir do ato simbólico, o povo hebreu passou a defender a fé em apenas um Deus, que não aceitava sacrifícios humanos em sua reverência, opondo-se aos demais povos de seu entorno. Esse é o primeiro referencial da passagem hebraica.

 

Passagem para a fuga da escravidão

O segundo foi marcado pelo exôdo do povo hebreu do Egito. Após séculos escravizado, Moisés os guiou numa fuga que durou 40 anos vagando pelo deserto até a terra que emana leite e mel. No ínterim, as bases de culto, legislações e demais costumes que fundamentaram a vida dos judeus foram forjados em crises de afastamento e apaziguamento da fé e das dúvidas.

Moisés, que recebeu os dez mandamentos, e protagonizou os fatos fantásticos mais marcantes de um relacionamento profundo com Deus, foi punido pela desobediência em diversos momentos. Um dos mais marcantes, com o seu povo sedento, foi ordenado que falasse com uma rocha que verteria água. Ao invés disso, ele a feriu duas vezes com o seu cajado, abrindo uma fonte de água pura em pleno deserto.

O homem a quem coube guiar o povo numa jornada cheia de voltas por quatro décadas, num trajeto enviesado, que quando se olha no mapa o caminho que fizeram chega a ser hilário caso tivessem seguido em linha reta. Jamais demoraria tanto tempo. A teimosia atrasou a chegada e Moisés não entrou na terra prometida para uma nova vida, apenas avistando-a ao longe, de cima do monte Nebo, hoje Jordânia.

 

Passagem para a vida eterna

Entre Moisés e Jesus, passou-se cerca de 1.500 anos. Os sacrifícios dos judeus eram obrigação religiosa mantida na Páscoa para celebrar a jornada épica e vitoriosa da travessia pelo deserto. Com rigor estabelecido no pentateuco, a reunião dos livros de Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio, os animais sacrificados precisavam corresponder aos apontamentos seculares.

Acabou virando um grande negócio, que rendia muito, especialmente no período da Páscoa, quando Jesusalém ficava apinhada de gente. Pelo menos uma vez na vida, todo judeu deveria cumprir a peregrinação até a cidade santa, no período pascal.

Os mercadores ofereciam os animais ao redor do templo aos peregrinos, com valores diferenciados de acordo com a perfeição dos bichos. O comércio era comandado pela casta que tinha a obrigação de conduzir os rituais de sacrifício. Os sacerdotes eram homens ricos e poderosos, que construíam suas riquezas da venda dos animais que criavam para os sacrifícios.

Jesus veio para romper a passagem ressigificando-a, mais uma vez. Além de exortar e punir os mercadores do templo, chamando para si a ira dos sacerdotes. Levada ao Sinédrio, o grande conselho de anciãos religiosos e homens ricos e poderosos, a queixa prosperou com a denúncia construída e conspirada até chegar a quem poderia levar o Mestre à morte.

A Páscoa que a cristandade celebra atualmente é o sacrifício do cordeiro de Deus. Seu único filho, que pela última vez imolava um justo e puro para beneficiar sua perfeição ao povo, dessa vez, beneficiava-o com o perdão de todos os pecados e promovendo mais um momento de transição. A renovação da vida pela ressureição, como promessa de vida eterna. Uma nova aliança, mais generosa.

 

Passagem para uma nova humanidade

Ontem, o domingo de Páscoa me levou a profunda reflexão de que vivemos mais uma passagem. Independente de qualquer relação cristã, quero aproveitar a alegoria do Pessach para identificarmos as mudanças que nos rodeiam. Em todas as transições, um elemento está no centro da questão: a renovação do pacto pela vida.

A humanidade precisa renascer. O custo é alto. Numa estreita relação com a imunidade, a vida e a morte estão por um fio. Um espirro. Uma gotícula. Pela capacidade de resistir a um minúsculo vírus, que fez horizontalizar todas as relações. As relações comerciais, que são a mola que impulsiona o mundo, precisa ser ressignificada.

O sacrifício que nos submetemos na quarentena, numa travessia, vagando para superar um deserto, desta vez vem em isolamento. O distanciamento nos joga para dentro. Se quisermos sobreviver para o deleite de um novo mundo, o pacto desta vez tem que considerar um projeto de harmonia sustentável.

 

Passagem para um novo rito

A natureza vive dias de glória com nossa parada obrigatória. A poluição decresce e as espécies não-humanas prosperam, com dias de paz e sossego, sem serem espreitados à caça, como troféus pagãos.

Chegamos no limiar, numa fronteira, que para atravessá-la teremos que rever conceitos arraigados há anos. O desprezo a vida dos inocentes animais, nossa cultura alimentar e a distribuição de renda estão no combo das mudanças.

O corona veio para coroar uns e destronar outros. A transição vai ocorrer independente de nossa boa-vontade ou de nossa resistência. A renovação é imposta. Comparativamente, o fundamento da Teoria da Evolução Darwiniana não favorece o mais forte ou o mais inteligente. Ganha tempo e se adianta no trajeto aquele que se adaptar mais rápido.

É uma oportunidade de rever o quanto damos valor à vida. Ou não. Precisamos renascer. Ou voltamos ao seio da Terra. A transição planetária não será parada com máscaras, ventiladores mecânicos e vacinas, que vão nos favorecer, claro. A mudança primeira, para garantir nossa evolução, vem de dentro. Em expansão para avançar no relacionamento com o planeta. Valores, sabores e amores entram na fila para um rito de passagem.

 

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