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Willian Tito Jornalista, radialista e redator publicitário apaixonado pelas letras. Comunicador há 35 anos.

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Geral - Política

Postada em 25/04/2020 ás 17h10 - atualizada em 26/04/2020 ás 13h22

Publicada por: Willian Tito

A PRESIDÊNCIA DESMORONOU
Moro acendeu o estopim do impeachment
A PRESIDÊNCIA DESMORONOU

A República Federativa do Brasil acordou ontem, sexta-feira, 24, com um tapa na cara da Polícia Federal. Uma das instituições que goza do reconhecimento da maioria da população foi aviltada com a demissão do delegado Maurício Leite Valeixo, então Diretor-geral da PF.

Ainda na madrugada, a publicação da exoneração no Diário Oficial da União, com duas inverdades, desestruturou de vez um dos pilares do governo federal, o Ministério da Justiça e Segurança Pública. Não foi a pedido nem foi em comum acordo com o ex-titular da pasta, Sérgio Moro, que constava assinando a demissão.

A tensão precedeu o terremoto no coração do planalto central com o anúncio de coletiva de imprensa marcada para 11h, no auditório do MJSP, com o até então ministro. Os veículos de comunicação confirmavam o que informaram desde o dia anterior: a saída de Moro. Era o começo do fim.

 

Demissão ou delação premiada?

Durante cerca de 40 minutos, Moro relatou como seu deu o convite e em que condições aceitou o ministério, além de um breve histórico das ações que considerava relevantes de sua administração. Para justificar a sua saída, fez uma denúncia gravíssima que compromete o presidente, caso seja comprovada.

O ex-ministro afirmou categoricamente que o presidente Bolsonaro queria trocar o chefe da Polícia Federal por alguém que pudesse ter autonomia para saber de investigações em andamento, bem como fizesse o papel de construir relatórios investigativos sobre terceiros.

Em resumo, um crime de interferência no sigilo e nos encaminhamentos das missões atribuídas à PF. Moro ainda temperou o prato servido lembrando que mesmo em outros governos, com membros que o compunham sob investigação, jamais houvera uma situação semelhante.

O ex-ministro foi mais adiante e declarou que a justificativa para a troca da direção da polícia estava relacionada a investigação demandada pelo Supremo Tribunal Federal e pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito das Fakes News, sob as quais não tinha nenhum poder para fazer gestão.

A bomba detonou a Presidência da República e envolveu os dois outros poderes: Judiciário e Legislativo. A saída de Moro acendeu o estopim que faltava para iniciar, com provas, o processo de impeachment de Jair Bolsonaro. A palavra lançada, assim com a flecha, não volta. O alvo foi alcançado com sucesso. O ex-ministro caiu, mas atirou e acertou em cheio o presidente,

 

Pronunciamento ou constrangimento?

Pouco tempo depois do fim da coletiva, que de coletiva não teve nada, pois o ministro encerrou suas declarações sem responder a nenhuma pergunta da imprensa, o presidente anunciou por meio de suas redes sociais que faria um pronunciamento às 17h, no Palácio do Planalto, restabelecendo a verdade.

Com tempo semelhante ao usado por Moro, com quase todos os seus ministros presentes, Bolsonaro iniciou um discurso escrito, mas logo partiu para o improviso. Contando a sua versão dos fatos, mostrou-se magoado por ter recebido a indiferença de Moro em episódio em que se encontraram em um aeroporto.

Numa sequência de lamúrias, quis colocar-se na condição de vítima, mas deixou implícito que realmente pretendia ter mais autonomia sobre o comando da PF. Para trazer à tona a sua verdade, valeu-se de mentiras. Em uma delas, lembrou que mandara desligar o aquecedor da piscina do Palácio da Alvorada, embora o aquecimento seja feito há anos com equipamento de energia solar.

Enumerou investigações que relacionavam a família, direta e indiretamente, sentindo-se perseguido. Queixou-se de Moro por dar mais importância a investigação do assassinato da vereadora Marielle Franco em detrimento da que a que trabalhava a descoberta do suposto mandante da facada desferida por Adélio Bispo. Por sinal, o inquérito foi encerrado afirmando que o crime foi cometido sem a participação de terceiros e sem mandante. A defesa de Bolsonaro nunca a contestou na Justiça..

Bolsonaro não apenas se defendeu, mas também atacou. Em dado momento, Bolsonaro acusou Moro de fazer uma troca com ele. O ex-ministro teria proposto aceitar a intervenção se tivesse a garantia de ser indicado ao STF, na vaga que será aberta em novembro deste ano, com a aposentadoria do ministro Celso de Mello.

Sem a notória habilidade para falar de improviso, com retórica sofrível, Bolsonaro acabou dando margens a ampliar a fragilidade exposta pela manhã por Sérgio Moro quanto às tentativas de interferência na PF. Excelente para dar respostas curtas e grosseiras, quando precisa explicar-se com mais aprofundamento, perde-se pela incapacidade de construir argumentos convincentes.

 

Moro saiu mais forte

Durante o pronunciamento de Bolsonaro, a imprensa divulgou que a Procuradoria Geral da República ingressara junto ao Supremo Tribunal Federal para elucidar as acusações de Moro ao presidente Bolsonaro. Instruiu que o ouvisse e colhesse provas sobre o que afirmara, se as tiver.

Juiz por 22 anos, com fama internacional adquirida por sua condução da Operação Lava Jato, Moro certamente não faria acusação desta gravidade se não tivesse as mínimas provas documentais para levar a frente o que afirmou. Ciente das consequências, deve estar muito bem munido para esclarecer suas colocações perante a Justiça.

Tanto é que iniciou na noite de ontem, durante a apresentação do Jornal Nacional, da Rede Globo, a apresentar prints de conversas por aplicativo de mensagens em que aponta a sugestão de interferência do presidente. Também envolveu a deputada federal Carla Zambelli (PSL/SP) de tentar negociar a vaga como ministro do STF caso concordasse em substituir o Diretor-geral da PF. Moro é padrinho de casamento da parlamentar, que ocorreu em 14 de fevereiro deste ano.

 

Caminho aberto ao impeachment

A sexta-feira foi movimentadíssima, deixando os brasileiros atônitos pelas ocorrências sendo transmitidas ao vivo. Pela primeira vez desde o início da pandemia, a agenda de pautas quase monotemática sobre o novo coronavírus viu o protagonismo mergulhar para posição coadjuvante pelo conflito entre Moro e Bolsonaro.

Só ontem, mais dois pedidos de impedimento do presidente foram protocolados na Câmara Federal, além de mais três outros que foram anunciados por partidos e instituições como o PSB, a OAB e a ABI. Chegando a quase 30 pedidos de impeachment, o presidente da casa legislativa, deputado Rodrigo Maia (DEM/RJ), foi provocado pelo ministro Celso de Mello (STF) para que posicione-se sobre o processo de afastamento de Bolsonaro em até 10 dias.

Completamente isolado politicamente, com a perda de apoiadores, de seguidores nas redes sociais, com processo aberto no Supremo, com quase três dezenas de pedidos de impedimento, Bolsonaro vê o cerco fechar-se sobre si. Mas há uma pergunta que precisa de resposta para se entender o porquê de insistir na saída de Valeixo, correndo tantos riscos.

Todos os vestígios apontam para dois de seus filhos: o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL/SP) e o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos/RJ). Segundo apuração da grande imprensa, ambos são apontados como os alvos de investigação da Polícia Federal, que revela-os diretamente envolvidos nos ataques ao Legislativo e ao Judiciário. Além de serem suspeitos de comandarem a grande estrutura que patrocina as fakes news, com o uso de disparos em aplicativos de mensagens e replicação das inverdades por robôs nas redes sociais.

Não vai tardar para a verdade emergir. Caso realmente seja esta a motivação, não só Bolsonaro estará implicado nas acusações de Sérgio Moro como os dois filhos também serão autuados. O suficiente para perderem os mandatos e o Brasil mergulhar em mais uma crise política em meio a uma pandemia. A presidência pode desmoronar, mas a República sai mais forte.

 

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