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Willian Tito Jornalista, radialista e redator publicitário apaixonado pelas letras. Comunicador há 35 anos.

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Cultura - Literatura

Postada em 26/04/2020 ás 19h32 - atualizada em 26/04/2020 ás 21h49

Publicada por: Willian Tito

CRÔNICA DA QUARENTENA 1
Fique em casa até todas as máscaras caírem
CRÔNICA DA QUARENTENA 1

Aos 41 dias de quarentena do ano da graça de 2020, cá estou vivinho da Silva porque seguro morreu de velho. E eu, como não sou mais criança, não fico dando mole a Kojak. Menos ainda a vírus.

Quando eu percebi que a parada era pra lá de séria, fiz uma sequência de coisas que eu gosto antes que tudo fechasse. Entre elas, passei mais de uma semana indo ao cinema todos os dias. Assisti até aos blockbusters mais óbvios. Feitos para não agradar a pessoas iguais a mim.

O cinema é a minha igreja neopentecostal. Um fiel fanático pela telona, que vou (que ia – atualizando) pagar meu dízimo uma vez por semana, no mínimo.

Aliás, tenho visto os pastores, que foram afastados de suas ovelhas por obra e graça divina, queixando-se do escasseamento de recursos nestes tempos de pandemia. Vou dar uma dica gratuitamente para não dizerem que estou pegando no pé.

Já pensarem em vender máscaras cirúrgicas do fogo santo? Com o apelo de que o poder contido nelas queima o espírito maligno que possa estar contagiando as pessoas, livrando-as de todo tipo de vírus. Até mesmo do corona.

Enfim, encerrei-me em casa, cavei a minha trincheira, que é mil vezes melhor que cavar a cova, e passei a uma nova rotina dirigida pela panela lotada de incertezas, borbulhando em fervura alta.

Cozinhando com um combustível que não nos faltou nos últimos dias, a raiva farta que o presidente nos faz ao desrespeitar as regras impostas para a quarentena, passei a pesquisar diuturnamente tudo sobre o patógeno e a nova patologia. Descobri que para pegá-la, só se for mesmo pato. Seguindo as recomendações estritamente, é quase impossível morrer afogado no seco, que foi a expressão de um sobrevivente cearense que melhor descreveu a sensação causada pela covid-19.

Como eu não estou a fim de colaborar com as estatísticas de contágios, muito menos de óbitos, vou ficando em casa o máximo possível. Fui obrigado a sair algumas vezes por necessidade, mas pensando em voltar à minha célula de sobrevivência o tempo todo.

Mudando de sal para azeite, já perceberam como aumentou o volume de sonhos? Nos primeiros dias, troquei um pouco a noite pelo dia e os sonhos vinham com alegorias fantásticas. Trazendo situações e personagens ‘nada a ver’. Pessoas que já passaram pela minha vida, estavam esquecidas na consciência, mas ressurgiram do inconsciente do nada. Achei isso marcante. Juro que nem lembrava de certas criaturas da minha infância e adolescência, há anos sem vê-las, e eis que elas reapareceram com as faces nítidas.

Ultimamente tenho sonhado muito com bichos, que eu adoro. Sejam os domésticos e, principalmente, os selvagens. Vez por outra, tô embarcado em algum safári onírico pela Amazônia, Caatinga, África e regiões temperadas e frias.

O melhor de tudo é estar frente a frente com animais de grande porte sem correr perigo. E eles nem se incomodam com a minha ‘presença’. É como se eu fosse uma câmera invisível, registrando todos os detalhes camuflado ao habitat. Recentemente, ‘vi’ uns leõezinhos albinos, recém-nascidos, bem de perto. So cute.

Deve ser a consequência da grande quantidade de leituras e documentários sobre o tema que já fiz/assisti e faço e assisto. Também considerei que o volume de encontros com gente quase não existe mais. Então restaram os seres que adoro me fazendo companhia. E como eu gosto. Cada vez que desperto destes reencontros, venho leve e pleno.

Sinto muita falta dos meus parentes, amigos, colegas de trabalho e irmãos de fé. Sinto falta de comer brócolis no vapor, que me passava quase todos os dias. Sinto falta das meninas que cuidam das minhas unhas. Sou péssimo para aparar as da mão direita. Meu cabelo, que já estava grande, está enorme. Raspei a barba de papai Noel, mas ela já está bem grande de novo. Estou bem diferente.

A mudança maior é a menos evidente. Os dias de calmaria, que passam lentos, também trouxeram uma paz interior e a nítida certeza que todos nós precisávamos deste período sabático, quase monástico.

Por bem ou por mal, é tempo de reaprender a valorizar o próximo, incluindo os não-humanos. A freada brusca, que quase fez o veículo capotar, era urgente. A máquina precisava de uma visita a oficina, sempre adiada. Quem sabe a gente se conserte um pouco.

Muita gente morrendo sem fôlego. Uns irresponsavelmente querendo morrer e levar outros consigo, num comportamento kamikaze. E o planeta respirando aliviado. Nós somos o vírus que infecta a Terra. O sistema imunológico da bola azul foi ativado. Quem não se adaptar aos novos tempos vai virar adubo. Fique em casa até todas as máscaras caírem, inclusive as cirúrgicas.

 

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