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Willian Tito Jornalista, radialista e redator publicitário apaixonado pelas letras. Comunicador há 35 anos.

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Cultura - Artista popular

Postada em 08/05/2020 ás 21h27 - atualizada em 09/05/2020 ás 03h31

Publicada por: Willian Tito

A LUZ DE LUIZA DE LUZILÂNDIA
The Queen Mary of England
A LUZ DE LUIZA DE LUZILÂNDIA

Maria da Inglaterra no lançamento da revista em quadrinhos

Maria Luiza dos Santos Silva nos deixou na noite de ontem, 7, quinta-feira. No auge do fulgor da super lua do mês de maio, que os iniciados nas ciências ocultistas celebram ao redor do mundo, especialmente no Nepal. Aqui, ainda abatido, vou encontrando conexões que fortalecem a grandeza da criatura iluminada.

Maria era luz. Luiza. Nascida em Luzilândia (PI), uma cidade ribeirinha aguada pelo Parnaíba. Foi nas brenhas de outra cidade, na planície litorânea piauiense, Buriti dos Lopes, que ela encontrou-se com a luz que iria fazer trilhar a vereda musical.

Segundo relata o decano dos intelectuais piauienses, Cinéas Santos, Maria repetia a mesma narrativa de como tudo começou: “...certa noite, viu uma luz intensa que se aproximava do terreiro da casinha onde morava. Assustado, Otacílio escondeu-se no interior da casa. Maria permaneceu na janela e viu descerem da luz duas crianças (Joãozinho e Diana) que, a partir de então, tornaram-se seus ‘guias’. Repetia a história com tal convicção que era impossível duvidar de sua veracidade.”

As crianças da história fantástica determinaram que Maria devia cantar. Também disseram outras coisas que vamos abordar no final deste texto. Otacílio foi o companheiro de vida de Maria. Aliás, quando ele se foi, pensei que ela não ia recuperar-se. Entrou em depressão profunda, quis abandonar tudo e nunca mais seria a mesma. Percebia nos olhinhos vivos, sempre ligeiros, a saudade e uma tristeza indisfarçável.

 

A lenda

Ontem, logo após a notícia da mudança de plano espalhar-se pelo mundo, a icônica Maria passou a receber as devidas deferências, que seriam bem melhor se fossem em vida, da forma mais pragmática: garantindo-lhe o sossego de uma velhice com conforto e todo o aparato que ela merecia.

Muitas vezes, só não passou fome porque os muitos amigos acudiam na hora do aperto. Seu guardião-mor, José Dantas, produtor e sonoplasta na acepção do termo, comandava as mobilizações conforme as urgências. Fiel a sua estrela por mais de 40 anos, sabe tudo e mais um pouco sobre ela.

Foi ele quem desmistificou a quantidade de canções que ela compôs. Os mais exagerados afirmam que ultrapassam as duas mil composições. Dantas estima que sejam algo em torno de trezentas. A maior parte foi com ela. Analfabeta, Maria não teve como registrar o seu precioso acervo. Otacílio botou no papel o que pôde e Dantas as gravou em estúdio.

O produtor conduziu o registro de dois álbuns e um DVD. O que está perpetuado são poucas dezenas do balanciê de Maria. Entre elas, a que vai garantir-lhe a posteridade no cancioneiro popular: “O Peru Rodou” ainda vai rodar por muitos e muitos anos.

A mais festejada nasceu de um episódio trágico. A morte do cantor, vozeirão, Agostinho dos Santos, em 12 de julho de 1973. O verso “e do danado do avião” referencia a data de sua mais celebrada criação. O artista foi vítima de um acidente aéreo nas proximidades do aeroporto de Orly, em Paris, França.

Encontrei uma versão com arranjo super sofisticado do violonista Josué Costa, que juntamente com Paulo Dantas (baixo) e Bruno Moreno (bateria) geraram um primor delicioso de se ouvir. O rockeiro Edvaldo Nascimento a eternizou no gênero que o destaca, trocando amante por amada na letra, com a licença interpretativa mais adequada.

Ela há de ganhar muitas outras versões para a consagrada e mais tocada, o top hit, bem como para outras como “José Mané”, “Bata, meu bem”, “Baião do cajueiro”, “Forró forrado”, “Pancada da viola”, “Marcha da perua”, e por aí vai.

 

Maria (primeira e única) da Inglaterra do Piauí

A altivez de Maria, com uma postura sempre alongada, pescoço esticado, segurança, autoestima normalmente elevada, presença de espírito e sua indefectível elegância brejeira conferiram-lhe o título da nobreza da Grã-Bretanha pelo musicólogo (e mais um bocado de outras coisas) Ricardo Cravo Albin.

Ele a descobriu e passou adiante. Provavelmente a gravação em vídeo mais antiga de Queen Mary é consequência da dica de Albin ao cineasta Paulo Cézar Saraceni. Com data incerta, o documentário “Laço de Fita” traz o casal Maria e Otacílio ainda bem jovens.

No final do filme, que resgata várias manifestações folclóricas piauienses, eles encerram como as estrelas. A cena começa com a nossa legítima blue blood sentada no meio do terreiro, “tocando” um violão, com Otacílio escanchado numa rede, em primeiro plano.

É um achado precioso. As imagens com a rainha e seu príncipe consorte iniciam depois dos 25 minutos de exibição. A pureza rude, crua e cândida é tão forte e comovente que muitos vão se emocionar, especialmente os que conheceram o par de pombinhos.

A nossa rainha do Sertão de Dentro não tinha inveja de ninguém, nem da Elisabeth II, soberana de uma ilha cuja capital é Londres. Aliás, uma de suas frases mais célebres já ultrapassou as fronteiras mafrenses e ganhou o mundo. Muito usada em momentos cruciais, é aplicada para encerrar conversa quando um dos pecados capitais mais vis é desvendado, como um veredito: “A inveja ainda mata um diabo.”

 

Lírica, fescenínica e ingênua

A poética intuitiva de Mary of England tinha a sua marca. De versos aparentemente despropositados, um termo entremeado punha-nos uma pulga atrás da orelha. Será que a poeta não quisera registrar sutilmente uma licenciosidade?

Em várias de suas canções, a paixão por seu ‘muso’ Otacílio sugeria um ciuminho velado, daqueles protetivos, marcando o terreno, vigilante, com rédea não muito longa. Uma pimentinha recorrente que devia temperar a relação do casal. “O meu amante” não é citação rara em sua obra.

A conjugação do verbo fugir também se dá, insinuando uma aventura a dois a qualquer momento, de rompante, para algum lugar onde o sossego rendesse o tempo generoso, a perder de vista e escapar dos olhares, a fim de amar até cansar.

O balanciê de Maria traduzia a sua alegria de viver. Estampando o prazer de curtir a vida com veio quase hedonista, gulosamente, lambuzando-se fartamente. O balanço flexível que traz a arte da poesia do movimento nas entrelinhas. O baião que vem do coco, que mexe e remexe contagiosamente, mas com o seu molho de receita única.

O professor Dr. Feliciano Bezerra saberia interpretar com mais propriedade, porque estudou para isso, o que para mim são apenas arroubos de percepção. Torço para que o faça. Sinto muito mais que decanto analiticamente a poética de Maria, a Grande. De uma coisa cravo sem temor, a musicalidade inata era visceral.

 

Fiquei encantado

Era o início do ano de 1979. Pela primeira vez fui exposto ao poder fascinante da cantora. Um pouco desengonçada em sua sincopada expressão corporal, em descompasso com o ritmo, mas de uma verdade tão brutal que deixou o garotinho embevecido.

Olhava aquela mulher encima de um caminhão de uma marca de cerveja promovendo risos e alegria. Alguns caçoavam sem cerimônia. Não a levavam a sério como eu e outros que a admiravam. A apresentadora do evento, Sulica, uma mulher exuberante, repetia: “Energia! Energia!”

O tempo passou depois daquele primeiro encontro na Praça Conselheiro Saraiva, no Centro histórico da capital piauiense, onde acontecia a Feirinha, aos domingos.

Dei-me conta do valor incomensurável da Maria da Inglaterra. A entrevistei algumas vezes como radialista. E toquei muitas vezes suas músicas em meus programas. Na noite de ontem, debulhei algumas lágrimas, ciente da perda do maior talento feminino da cultura popular raiz sertaneja autêntica. É assim mesmo. Transbordando redundâncias, com a permissão concedida somente às criaturas sempar.

 

Podia ser diferente

Hoje, vi algumas autoridades rendendo as devidas homenagens a Maria. O prefeito de Teresina, Firmino Filho, decretou três dias de luto em sua memória. Um simbolismo que reconhece a sua grandeza.

Outros políticos destacaram a sua trajetória, que só passou a ser respeitada conforme merecia com a idade já avançada. Maria não era levada a sério, como confirmou o Zé Dantas, que tem idade para ser filho, mas foi o grande pai de nossa mega star.

A Assembleia Legislativa do Piauí aprovou projeto de Lei de autoria da deputada Flora Izabel (PT), que institui o Registro do Patrimônio Vivo do Estado do Piauí, em julho de 2008. A lei foi sancionada pelo governador Wellington Dias em 16 de dezembro de 2008, com o número 5.816, conforme pode ser verificada neste link.

Se tivesse entrando efetivamente em vigor, garantiria um salário mínimo para grupos e nomes notórios de mestres da cultura popular. Maria seria uma das contempladas. Não é muita coisa, mas daria para juntar com o outro salário mínimo que ela recebia como aposentada. Serviria para pagar um plano de saúde.

Quem sabe poderíamos ter retardado a sua passagem com a garantia de acompanhamento médico especializado. Quem sabe o nódulo que a impedia de cantar pudesse ser amenizado. A geriatria saberia precaver a insuficiência renal de que foi acometida, já que não era uma doença crônica, e a levou a óbito em cinco dias. São suposições.

Não quero culpar nem acusar ninguém de nada, mas faço um apelo: que tal botar a lei para funcionar? Quem sabe podemos garantir mais tempo para a sanfoneira Sebastiana, de Coronel José Dias; para o Mestre Severo, do Reisado do Piauí e tantos outros artistas que são nosso grande patrimônio cultural. Alguém que tenha acesso aos gestores poderia sensibilizá-los.

 

Epílogo

Quero expressar a minha profunda gratidão ao José Dantas. Você zelou por nossa rainha da melhor forma possível. Alertou na hora certa. Encaminhou. Aconselhou a família a tomar a decisão correta no momento desafiador. E mais que isso, registrou historicamente a expressão da fortuna artístico-cultural de Maria.

Emprestando mais uma vez a narrativa facebookiana do Dom Quixote de Caracol, publicada hoje: “Na última entrevista que fiz com Maria, ela resumiu toda a sua trajetória com incrível poder de síntese: "Os meninos disseram que eu ia sofrer muito, mas ia vencer tudo. E quando eu subisse na vida, tinha de passar um ano na Praia de Boa Viagem, no Recife". Fez uma pausa e, com um sorriso triste, finalizou: "O problema é que nunca subi na vida. A vida e que vive subida em mim".

Existem documentários, muitos bons textos, trabalhos diversos, várias gravações de suas músicas, até a sua história foi contada em quadrinhos. Excelente. Vamos cultivar sua memória.

É pouco provável que nasça outra artista desta envergadura, neste segmento, semelhante a ela. Preferia que a gente pudesse tê-la aqui por mais tempo para reverenciá-la, paparicá-la e enchê-la de mimos e carinhos bem mais que os 81 anos, 3 meses e 16 dias que viveu entre nós. Nós a perdemos, mas o Otacílio a tem de volta e o céu dos músicos vai ficar mais animado.

 

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