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Saúde Aliado
07/12/2021 11h23
Por: Francine Dutra

App auxilia pessoas trans durante tratamento hormonal e transição de gênero

O processo de tratamento hormonal é motivo de muita alegria para pessoas trans que desejam passar pelo procedimento médico. No cotidiano, todavia, esse processo precisa ser realizado com muita atenção, comprometimento e cautela. O acolhimento também é uma etapa de extrema importância para garantir o bem-estar de pessoas trans.

Pensando nisso, cinco estudantes participantes do projeto Apple Developer Academy, da Universidade Católica de Brasília (UCB), desenvolveram um aplicativo capaz de ajudar pessoas trans que estão passando pelo tratamento hormonal. O Queely (junção das  palavras “queer” e “weekly”) foi lançado na plataforma iOS em outubro e funciona como uma plataforma de monitoramento para que a pessoa usuária possa avaliar a evolução do tratamento.

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Por lá, é possível otimizar a organização do tratamento no dia a dia. O Queely permite que a pessoa usuária armazene informações sobre medicamentos, como horários e dosagens, e consultas médicas. O aplicativo também conta com as opções de diário, anexo de fotos e mapa de humor.

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Vitor Souza, Arthur Amorim, Felipe Marra e João Victor Alves assinam a programação do projeto, enquanto Isabella Matiuzzo elaborou o design da plataforma. A ideia surgiu quando foi proposto ao grupo que fosse elaborado um projeto capaz de auxiliar algum campo da sociedade.

O grupo escolheu focar na saúde de pessoas trans, principalmente no tratamento hormonal, depois de encontrar diversas pesquisas sobre o assunto. No entanto, os estudantes notaram sobre o gap de iniciativas e plataformas para auxiliar nesse processo. “Já não é um processo fácil, é muito delicado em questões de autoestima e aceitação da família, por exemplo. Queríamos dar um ombro amigo e ajudar de alguma forma”, explica Vitor ao iG Queer.

Para otimizar a plataforma, Felipe explica que o grupo recorreu a ajuda de endocrinologistas e psicólogos, considerados atuantes nas áreas mais importantes dentro do processo de tratamento hormonal, e pessoas trans que participaram da concebimento da ideia desde o início. Essas pessoas também ajudaram a aprimorar as funcionalidades de acordo com as necessidades da terapia.

“Queríamos criar um ambiente saudável e acolhedor para que a pessoa se sinta à vontade em compartilhar suas fotos e informações. Isso é feito desde o design até as frases usadas em campos que indicam as funcionalidades”, aponta Vitor.

O aplicativo pode receber no futuro funcionalidades novas; entre elas, o grupo estuda incluir uma espécie de chat em que as pessoas possam compartilhar seu processo de transição de gênero. No entanto, Vitor e Felipe enfatizam que, por enquanto, o Queely funciona de forma individual para garantir a segurança das pessoas usuárias.

“Apesar de ser voltado para pessoas trans, qualquer pessoa pode baixar o aplicativo, incluindo pessoas que entram para fazer discurso de ódio e quebrar aquele ciclo agradável. Queremos implementar essa parte mais social de forma segura”, salienta Vitor.

Os estudantes reforçam que o aplicativo não tem o intuito de indicar tratamentos ou apontar quais hormônios devem ser usados, por exemplo. “Sempre salientamos que é preciso que a pessoa busque o médico, realize exames e tenha o acompanhamento correto com um profissional”, continua Vitor.

Por que o app é voltado apenas para pessoas trans?

Vitor e Felipe explicam que a saúde trans e o tratamento hormonal possuem algumas particularidades, que são diferentes da saúde de pessoas cisgênero. Primeiramente, eles abordam o preconceito passado por pessoas trans dentro do sistema de saúde. “Eu, como um homem cis, posso ir ao médico sem ser julgado por isso ou sem ser questionado pela minha família. No entanto, isso não é recebido de forma agradável quando se trata de uma pessoa trans”, diz.

Felipe aponta o fato de que os medicamentos e hormônios precisam ser administrados de forma correta e cuidadosa. “Tem pessoas que não podem contar para a família, por exemplo, e aceitam realizar o tratamento sob meios mais perigosos”, aponta. Devido a isso, algumas pessoas podem se submeter a medicamentos e doses equivocadas, por exemplo, que podem trazer complicações para a saúde mental e física.

O terceiro motivo é a necessidade de um amparo emocional. “O psicológico conta muito nesse processo. Por exemplo: se um homem trans inicia o tratamento e não consegue ter pelos na face logo, isso pode ser motivo de muita frustração. Por isso, o aplicativo tem essa função de auxiliar nas queixas para que sejam melhor abordadas por um profissional”, diz Felipe.

O exemplo disso é o uso do bloco de notas e do mapa de humor. Vitor afirma que, por meio do Queely, é possível que a pessoa compartilhe suas notas e pensamentos daquele dia diretamente com o psicólogo, o que pode aprimorar ainda mais o tratamento. “Em uma consulta regular, se passa o overview de tudo que aconteceu ou até se omite algumas informações que podem ser importantes. Com o diário, o profissional fica ainda mais por dentro da questão do humor”, explica Vitor.

Recepção do aplicativo

A equipe desenvolvedora do Queely está satisfeita com a recepção do aplicativo e afirma ter recebido muitos feedbacks positivos de pessoas trans, que apontaram melhora na organização da rotina do tratamento hormonal. Além disso, o cuidado e o acolhimento também são pilares ressaltados pelas pessoas usuárias.

“Nosso trabalho cumpriu com seu dever e isso é algo que deixa a gente imensamente feliz. Isso também se tornou motivação para continuar desenvolvendo as novas funcionalidades para conseguir um processo mais agradável e eficiente possível”, destaca Vitor.

Felipe espera que mais pessoas trans possam se sentir empoderadas e felizes diante do processo de transição de gênero por meio do aplicativo. “Queremos que as pessoas se sintam livres das amarras da sociedade e que possamos ajudar com que elas vivam mais livremente”, diz.

“O tratamento hormonal e a transição de gênero não são só ‘uma coisinha’. É algo sério e extremamente importante para a vida de alguém. Vimos muitas pessoas empolgadas diante do desenvolvimento do aplicativo, que nos ajudaram com isso, e que agora estão felizes com algo que realmente vai ajudar. Isso não tem preço”, conclui Vitor.

Como funciona o tratamento hormonal?

A vigilante de biomedicina Marcella Gomez, 26, iniciou o tratamento hormonal há seis anos. Ela se lembra que a primeira sensação que teve foi de libertação e início de um sonho. “É quando a gente começa a ficar mais feliz e satisfeita, a gente sente que está atingindo um objetivo bacana”, conta.

O editor audiovisual Lucas René, 25, faz o tratamento hormonal há pouco mais de um ano, mas sabia que era uma pessoa transgênero desde os 17. Ele conta que a transição era tudo o que sempre quis para se sentir ele mesmo.

"Eu tinha muita disforia com a minha voz e com a distribuição de gordura corporal, algo que a testosterona ajudou. Sabia que as mudanças me trariam insegurança no começo, mas que seria uma fase", lembra.

Apesar de ser um processo que traz felicidade, Marcella e Lucas contam que sentiram medo e ansiedade em relação ao futuro, justamente por não saber exatamente como seria a reação do corpo. Marcella afirma ter se sentido mais vulnerável e insegura porque, na época em que começou, era mais difícil encontrar informações. "É um tiro no escuro", complementa Lucas.

No caso dele, isso se agravou porque ele não era assumido no trabalho ou para a família. “Demorei muito porque me sentia inseguro quando me descobri. Eu era menor de idade e faltava muito apoio. Tive zero suporte da família e nem sabia que o tratamento podia ser feito pelo SUS. Não sabia para onde correr. Achei que viveria sem poder revelar minha identidade como gostaria”, conta.

A pressão psicológica, que é parte do processo, se mescla ainda com os efeitos adversos causados pelos hormônios. “O hormônio é uma composição química. Além dos benefícios, é uma medicação que tem uma longa lista de efeitos colaterais, tanto os comuns como os incomuns”, diz Marcella. Na primeira etapa do tratamento, em que usou um bloqueador de testosterona, ela sentia fadiga, cansaço e picos de estresse na fase de adaptação.

Durante o uso do estrogênio, os enjoos apareceram e o corpo dela ficou mais sensível, principalmente durante a época de desenvolvimento da glândula mamária. “Dói muito. Sentia tanta dor que não conseguia dormir. Só quem sabe passa”, diz. Ansiedade e irritabilidade também se tornaram constantes no início.

Lucas afirma ter tido mais espinhas, mudanças na temperatura corporal e percebeu que não tinha mais tanta facilidade em expressar emoções como a tristeza, por exemplo. “Não tenho mais tanta facilidade para chorar como antes. Lembro que tinha isso mais antes da transição, que é uma consequência do hormônio feminino. Como homem trans, essa irritabilidade até acontece, mas não chega a ser igual a uma TPM”, compara.

Devido às mudanças tão extremas e irreversíveis ao corpo, Marcella e Lucas ressaltam que é muito importante manter a periodicidade das consultas médicas e da realização de exames para entender o que o corpo demanda. Os profissionais também podem ajudar a criar um cronograma de medicamentos que se sincronize com a rotina da pessoa em tratamento.

“Eu sou extremamente esquecida e não lembro de tomar os remédios. Tentei associá-los à minha rotina skincare. Sempre que vou fazer, tomo meu hormônio. Quando me preparo para dormir, tomo o outro. No entanto, isso é algo que deve ser definido com o médico”, ressalta Marcella. Alarmes de celular e aviso em calendários é a forma como ela se organiza atualmente.

Lucas também não considera ter uma rotina muito organizada e que tende a ser um pouco esquecido. Ele realiza a aplicação dos hormônios a cada três meses pelo SUS e, no meio tempo, realiza seus exames e consultas. Recentemente, ele conta que, por ter esquecido de levar um exame ao endocrinologista, teve problemas após receber a aplicação da dose.

“Foi a primeira vez que não levei meus exames pela correria. Quando fiz os exames, vi que apresentaram algumas alterações que decidi ignorar. Apliquei a dose do mesmo jeito, o que não me fez bem. Foi assustador”, afirma. Lucas considera que o episódio serviu para que ele fique mais atento.

Marcella também teve algumas complicações. Devido à insegurança diante da pandemia, no período de isolamento social, ela desenvolveu alopecia, que causa queda de pelos e cabelos de forma excessiva. “Já estou fazendo o acompanhamento, mas isso serve de alerta para manter a regularidade das consultas”, indica.

Ela também vê o tratamento psicológico como uma base importante, principalmente para quem está no início do tratamento hormonal. Lucas concorda: “O tratamento hormonal deve ser a última etapa de todas. Em primeiro lugar, é preciso ter apoio psicológico. Muitas pessoas iniciam de qualquer jeito e aí precisam parar porque não conseguem manter o tratamento, e isso prejudica a saúde”.

Marcella pede ainda que pessoas cisgênero que estão próximas de uma pessoa trans em tratamento hormonal estejam alertas às medidas de segurança para dar apoio. “Também é importante tentar perceber se essa pessoa está mostrando algum desequilíbrio de comportamento porque isso pode ser uma questão de hormônio. Assim, pode-se dar luz a um caminho escuro e incentivar a busca de ajuda”, instrui.

Para ela e Lucas, o apoio e o acolhimento da família, de amigos e da sociedade tem papel fundamental no tratamento. “Com certeza isso pode impactar positivamente. No meu caso, se eu tivesse familiares que me dessem suporte, eu poderia ter começado muito antes”, diz Lucas.

Mesmo assim, ele ressalta que se sente uma pessoa privilegiada por estar em um local em que há informação sobre o tratamento hormonal e a transição de gênero. “Fico pensando em quem mora no Nordeste do país, por exemplo, ou até em regiões do interior de São Paulo onde não existe qualquer suporte”, aponta.

“Estou em grupos de pessoas trans e vejo histórias de gente que está na fila de espera das cirurgias ou do tratamento hormonal. É muito triste pensar que não temos nem o mínimo de dignidade”, acrescenta.

Em relação ao preconceito por parte da sociedade e do sistema de saúde, Marcella pede para que as pessoas trans não recuem. “Vocês vão encontrar espaços na rede de saúde para vocês porque é um direito, e vocês precisam buscar o direito de vocês. Precisa ir ao posto de saúde, falar que quer fazer a terapia hormonal e manter a rotina do médico. Se você está disposta a fazer o tratamento hormonal e se sentir mais feliz com você mesma, deve entender a importância do acompanhamento da saúde”, declara.

Fonte: iG
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